Um homem de 65 anos foi resgatado em condições análogas à escravidão em uma fazenda localizada dentro da Estação Ecológica Terra do Meio, unidade de conservação federal no município de Altamira, no sudoeste do Pará.
A operação aconteceu no dia 14 de julho de 2026, com apoio de helicóptero da Polícia Federal. A confirmação foi divulgada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) no domingo seguinte.
Leia também:
- Princípio de incêndio em ônibus assusta passageiros em Outeiro
- Influenciadora denuncia assédio sexual durante evento no Pará
O trabalhador vivia em isolamento total há quase oito anos, sem acesso a condições mínimas de dignidade. Segundo a AFT, neste período, ele foi obrigado a desempenhar diversas funções sem qualquer apoio.
Entre as tarefas estavam:
- Vigilância da fazenda;
- Manutenção da pista de pouso;
- Manejo de animais;
- Cultivo de pequenas lavouras de subsistência.
A operação de resgate reuniu o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Defensoria Pública da União (DPU). Além disso, contou com informações levantadas em inspeções anteriores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do próprio MPT.
Barracão sem luz, banheiro inutilizado e água do rio
O trabalhador habitava um barracão de madeira com tábuas desalinhadas.
Além disso, o telhado apresentava goteiras e o piso era de terra batida. O quarto não tinha iluminação. O banheiro estava fora de uso há cerca de quatro anos, o que forçava o idoso a usar a mata como sanitário.
A água consumida vinha diretamente do rio Pardo. Para utilizá-la, ele a armazenava em recipientes reutilizados de óleo lubrificante de motor, aguardando o barro decantar antes de beber.
Três meses sem comida e acidentes com animais peçonhentos
A alimentação fornecida pelo empregador se resumia a arroz, feijão, óleo e sal. Em determinado período de 2025, contudo, o idoso ficou cerca de três meses sem receber nenhum mantimento.
Nesse intervalo, ele sobreviveu com abóboras que cultivou e piranhas pescadas no rio. Diante da situação, ele chegou a considerar abandonar o local. Porém, desistiu por temer perder os direitos trabalhistas acumulados.
Ao longo dos anos, o trabalhador também enfrentou situações de risco à vida. A fiscalização registrou os seguintes acidentes com animais:
- Duas picadas de cobra jararaca;
- Dois ferroamentos por arraias durante banhos no rio.
Ademais, ele ficava em vigília noturna para afastar morcegos que atacavam os porcos da propriedade.
Em uma ocasião de dores renais intensas, ele caminhou cerca de 27 quilômetros em mata fechada, durante um dia e meio, até chegar à casa de outro trabalhador para pedir socorro.
Analfabeto, com deficiência auditiva e sem contato com a família
O perfil do trabalhador revela elevada vulnerabilidade social.
Ele é analfabeto, possui deficiência auditiva severa e apresenta problemas de visão. Por conta da ausência de sinal de telefone ou internet na área, chegou a ficar até três anos sem qualquer contato com familiares.
Após o resgate, os órgãos participantes da força-tarefa providenciaram nova carteira de identidade e inscrição no CPF para o idoso.
Em seguida, ele recebeu atendimento médico e foi encaminhado para benefício assistencial ou previdenciário. Um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assegurou o pagamento das verbas rescisórias, indenização por danos morais e emissão das guias do seguro-desemprego.
Além disso, o trabalhador recebeu roupas, itens de higiene pessoal, alimentos e um celular.
Com isso, voltou a ter contato com parentes residentes no Maranhão, em Goiás e em São Félix do Xingu (PA), município onde passará a viver.
Denúncias de trabalho em condições análogas à escravidão podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, disponível no site da Secretaria de Inspeção do Trabalho.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar