Porto é uma cidade de esplendores. Guarda à beira do Douro o espaço romântico próprio para se comemorar aniversários que se enquadrem num desses "entas" — dos quarentas aos noventas. Comemoramos o aniversário da esposa de modo prazenteiro ao lado de familiares, ouvindo o que a calçada da Ribeira tinha a oferecer naquela noite primaveresca, com o rio escuro à frente e o tagarelar alegre das mesas ao redor, cheias de franceses. O aniversário pedia exatamente aquilo: lugar agradável e gente alegre de fora e também de casa.
Sentados, degustando um tinto da casa, a aniversariante levanta-se e vai à casa de banho. Exatamente nesse momento um florista aparece à frente, ajudado pelo Sr. Vasco, um garçom que esconde na boca os restos mortais de uma dentição dos tempos da Revolução dos Cravos, mas dotado de uma incomum e genuína simpatia portuguesa que compensa qualquer lacuna na arcada dentária. Comprei uma rosa esplendorosa cor-de-rosa, por raros euros. Era o mínimo que o aniversário, o rio e o vinho pediam.
Uma jovem loura, com rosto fino e bem esculpido, sentada ao lado, vê o gesto e suscita ao namorado a mesma rosa. Não deu outra. Só que ele a presenteou com duas, no mesmo tom. A superação gerou um sorriso encantado dela e uma saudação entre mim e ele, como fazem os que se entendem sem precisar de palavras. Eu disse: - você é esperto, hein! Aproveitou a minha deixa.
Chamou-nos atenção o sorriso dele. Dentes totalmente desestruturados, amarelados e cariados, em parte por conta da carteira de cigarros sobre a mesa. Após breve diálogo, contando-nos sobre a sua viagem a São Paulo, despedimo-nos à beira do Douro, com ele ainda tragando o alcatrão da morte-lenta. Desejei-lhe boa sorte e disse para ter mais cuidados com a saúde, por ser ainda tão jovem. Um alerta que saiu de forma reflexa para um cirurgião, mesmo em férias, sem jaleco e longe do bisturi.
Após uns dez ou quinze passos, me arrependi. Retornei para pedir desculpas por ter comentado sobre o vício. Não tenho nada a ver. Ninguém ali pediu uma opinião clínica à beira do Douro.
Ainda bem que voltei. Vejam o que aconteceu. Com bom humor, o britânico respondeu: Não se preocupe. Já fui curado de um linfoma há dez anos e estou com uma colostomia, por conta de grave infecção abdominal à época da quimioterapia pesada. Levantou o casaco e mostrou-me a bolsa de colostomia que carrega no lado esquerdo do abdômen, com uma imensa faixa de contenção circundando o tronco. Falava com serenidade, a mesma de quem já fez as pazes com o próprio corpo e com o passado.
Fui embora com uma lição que não esperava levar. Ainda bem que o meu arrependimento contido naqueles passo de volta chegou antes da resposta dele. Ele apenas confirmou, com uma elegância desconcertante, o que já devia ter ensinado a tantos outros. Isso diz algo sobre o que acontece quando se sai do papel de médico, se guarda o jaleco na mala e se torna, simplesmente, gente entre tantos mais.
Há uma ironia delicada que atravessa toda a cena de quem passa a vida protegendo pulmões e pede desculpas a um sobrevivente de linfoma por ter tocado no assunto do cigarro. E ainda por cima o sobrevivente daquele câncer sorriu e agradeceu a minha preocupação. Não por descaso com a saúde, mas porque já negociou com a morte de um modo que torna qualquer conselho bem-intencionado, algo pequeno, quase ingênuo, diante da escala do que já viveu e ainda carrega no corpo e na memória. O sorriso dele não era negação, era própria escala de valores, traduzida em quimioterapia e cirurgia.
Por Roger Normando
O autor é professor de cirurgia torácica da Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.
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