Quando a indignação ultrapassa fronteiras locais e ganha as ruas de diferentes cidades, o protesto deixa de ser episódio isolado e passa a sinalizar um abalo mais profundo no tecido social. Em meio ao frio do inverno norte-americano, a mobilização popular voltou a expor tensões históricas ligadas à imigração, ao uso da força estatal e aos limites da atuação federal em comunidades urbanas.
Nesse cenário, protestos se espalharam por todo o país neste sábado (10), após a morte da estadunidense Renee Nicole Good, de 37 anos, baleada por um agente do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega) durante uma operação em Minneapolis. O caso reacendeu críticas à política migratória do governo do presidente Donald Trump e impulsionou atos em várias cidades dos Estados Unidos.
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"O ICE MATA"
Em Minneapolis, milhares de manifestantes desafiaram temperaturas negativas e se reuniram em um parque próximo ao local onde Renee Good foi morta. Empunhando fotos da vítima e cartazes contra o governo federal, os participantes entoaram gritos de ordem pedindo o fim das operações do ICE na cidade. O ato marcou o quarto dia consecutivo de manifestações, que vêm crescendo em número e intensidade.
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"O ICE mata. São fascistas. São assassinos. Invadiram a nossa cidade", gritava parte da multidão, que transformou o protesto em um ato de denúncia pública. Para moradores da cidade, a revolta vai além do episódio específico. "Estamos protestando contra violações de direitos humanos e contra o tratamento desumano que este governo impõe às pessoas", afirmou Kelly Joyce, residente em Minneapolis.
MEDO E ESTIGMATIZAÇÃO
O sentimento de medo e estigmatização também esteve presente nos discursos de imigrantes e descendentes. "Não somos criminosos. A cor da nossa pele ou o fato de falarmos espanhol não nos torna criminosos", disse Daniel, de 45 anos, morador da cidade e de origem mexicana, ao destacar o impacto da retórica anti-imigração do governo Trump.
A mobilização ganhou força com a atuação do movimento No Kings, uma rede de organizações de esquerda que se opõe às políticas migratórias da atual administração. Sob esse guarda-chuva, manifestações também ocorreram em Nova York, Washington e Filadélfia, onde grupos marcharam sob chuva da prefeitura até escritórios do ICE, ampliando o alcance nacional dos protestos.
VERSÃO DO GOVERNO NÃO CONVENCE
Enquanto as ruas fervem, o governo federal tenta sustentar a versão de que o agente responsável pelos disparos agiu em legítima defesa, classificando Renee Good como uma "terrorista doméstica". A justificativa, no entanto, vem sendo duramente contestada por autoridades locais.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, afirmou que imagens em vídeo contradizem a narrativa oficial. Segundo ele, as gravações mostram o veículo de Renee se afastando do agente no momento do disparo, o que tornaria a tese de legítima defesa "um disparate". Vídeos de celular, supostamente gravados pelo próprio policial, mostram a interação entre os dois instantes antes do tiro fatal, quando a vítima teria bloqueado a rua com seu carro.
ANÁLISE FORENSE CONTESTA VERSÃO DO GOVERNO
Uma análise forense publicada pelo The New York Times, baseada na comparação de vídeos captados por diferentes ângulos da cena, contradiz de forma direta a versão sustentada pelo governo Trump de que o agente do ICE agiu em legítima defesa.
Segundo o trabalho, ao reconstruir a sequência de imagens, fica claro que a motorista não estaria em um movimento de ataque contra o agente, mas sim tentando afastar-se da ação no momento em que foi alvejada - e também que o agente não foi atingido pelo veículo -. o que enfraquece a narrativa oficial de que ela teria tentado atropelar o policial de imigração.
VEJA O VÍDEO:
Must watch: NYT just released a damning forensic analysis of the ICE shooting in Minneapolis.
— Matt McDermott (@mattmfm) January 8, 2026
It flatly refutes Trump administration claims — confirming the motorist was driving away, not toward the officer, and the officer was not hit by the vehicle.https://t.co/n8opkxbtmU pic.twitter.com/jJ0ttyr34R
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