Uma das maiores competições esportivas do planeta carrega, dentro de campo, histórias de superação e conquista. Mas, às vésperas de seu início, uma dessas histórias acabou antes mesmo do apito inicial.
Omar Abdulkadir Artan seria o primeiro somali a atuar como árbitro em uma Copa do Mundo. No entanto, sua trajetória histórica foi interrompida de forma abrupta ao desembarcar no aeroporto de Miami na segunda-feira (8). As autoridades estadunidenses negaram sua entrada no país, mesmo com ele em posse de visto válido para a competição.
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Dois dias depois, o governo de Donald Trump apresentou uma justificativa para a decisão.
Segundo a Casa Branca, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) descobriu, em inspeção detalhada, supostas ligações do árbitro com organizações terroristas.
Porém, nenhuma prova foi apresentada publicamente para sustentar a acusação.
"Após uma inspeção mais detalhada realizada pela CBP, foram descobertas informações desabonadoras, incluindo associação com supostos membros de organizações terroristas, o que tornou o viajante inelegível para admissão nos Estados Unidos nos termos da Lei de Imigração e Nacionalidade", informou a Casa Branca em nota.
Recepção de herói em Mogadíscio
Artan retornou à Somália sem participar da Copa e, ainda assim, foi recebido como símbolo nacional. Ao desembarcar em Mogadíscio, ele foi saudado por dirigentes esportivos, representantes do governo e milhares de torcedores.
Além disso, uma cerimônia ocorreu no Estádio de Mogadíscio, o maior do país, com a presença de multidão em seu apoio. Diante das câmeras, o árbitro fez questão de agradecer o suporte recebido.
"Quero agradecer à Fifa pelo apoio durante todo esse processo e também ao povo da Somália. Sou muito grato à Fifa e à CAF", declarou Artan após chegar ao aeroporto.
O presidente da Federação Somali de Futebol, Ali Abdi Mohamed, também se manifestou sobre o caso.
Para ele, Artan conquistou o direito de atuar no torneio com base em sua trajetória sólida na arbitragem internacional e, portanto, merecia a oportunidade que lhe foi negada.
Quem é Omar Artan?
Artan é um dos nomes mais respeitados da arbitragem africana. Seu reconhecimento no continente culminou em um prêmio importante: em 2025, a Confederação Africana de Futebol (CAF) o elegeu o melhor árbitro do continente.
Por isso, sua convocação para a Copa do Mundo de 2026 foi vista como natural e merecida. Além do prestígio técnico, ele carregava um peso simbólico.
Sua participação na Copa representaria um marco para o futebol somali, país que enfrenta desafios históricos no esporte internacional.
ONU critica políticas migratórias dos EUA
O caso de Artan não foi isolado.
Outros participantes da Copa relataram dificuldades de entrada nos Estados Unidos, o que levou o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, a se pronunciar na quarta-feira.
Ele pediu que o governo norte-americano revise suas políticas migratórias durante o torneio. Entre os episódios relatados, destacam-se:
- A seleção do Senegal foi submetida a revista na pista do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte;
- A delegação do Uzbequistão teve todas as bagagens revistadas e aguardou horas sob o sol antes de ser liberada.
Canadá abre as portas para Artan
Enquanto os EUA fechavam as fronteiras, o Canadá estendia o convite.
O primeiro-ministro da província da Colúmbia Britânica afirmou publicamente que Artan seria bem-vindo em Vancouver. Além disso, ele sugeriu a possibilidade de o árbitro participar de partidas programadas na cidade canadense durante a Copa.
A declaração reforçou o contraste entre as posturas dos dois países anfitriões do torneio diante das políticas de imigração.
Infantino se esquiva da responsabilidade
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, abordou o caso em coletiva de imprensa realizada no estádio Azteca, na Cidade do México, na quarta-feira (10).
Contudo, ele desviou da responsabilidade da entidade, ao atribuir as decisões de imigração exclusivamente aos países anfitriões.
"É lamentável o que aconteceu com Omar, o árbitro da Somália. Mas, novamente, não controlamos tudo. Estamos trabalhando nos bastidores, tentando entender a situação", afirmou Infantino.
Ele ainda acrescentou: "Precisamos reconhecer que não somos os donos do mundo, que podem mandar em governos e forças policiais. Somos uma organização esportiva".
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A postura do dirigente foi recebida com críticas, pois a Fifa assinou os contratos de sede com os países anfitriões e, portanto, tem instrumentos contratuais para exigir garantias de acesso a todos os participantes credenciados.
Veja a recepção:
🇸🇴 Nunca vi algo así. En Somalia hoy se llenó un estadio para recibir como héroe nacional a Omar Artan, el árbitro al que Estados Unidos le negó la entrada al Mundial. Increíble.pic.twitter.com/Xrc90D2XVK
— Nahuel Lanzón (@nahuelzn) June 10, 2026
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