Uma análise de 91 objetos arqueológicos revelou que integrantes das elites minoica e micênica, na Grécia da Idade do Bronze, podem ter usado joias produzidas com ferro de meteoritos. Entre as peças está um anel encontrado no dedo de um homem possivelmente ligado a atividades religiosas, indicando que o material vindo do espaço pode ter sido associado a prestígio, poder e status social há cerca de 3 mil anos.
Pesquisadores do Museu Nacional de História Natural, na França, e da Universidade Nacional e Kapodistriana de Atenas, na Grécia, analisaram objetos preservados em 19 museus e encontrados em 33 sítios arqueológicos. As peças têm entre aproximadamente 3.800 e 3.000 anos e incluem itens relacionados às sociedades minoica e micênica.
CONTEÚDOS RELACIONADOS:
- Corpo do "Botas Verdes" pode ser retirado do Everest após 30 anos
- Tesouros e monumentos mais antigos que Jesus são achados na Grécia
Entre os artefatos examinados estavam 13 anéis que apresentavam quantidades relevantes de níquel, elemento frequentemente encontrado em meteoritos de ferro. Nove deles foram considerados muito provavelmente produzidos com material extraterrestre, enquanto outro apresentou fortes indícios da mesma origem. Os demais ainda dependem de análises complementares.
Ferro que caiu do céu
Meteoritos são fragmentos de rocha ou metal que atravessam a atmosfera e chegam à superfície terrestre. Alguns possuem concentrações elevadas de ferro e níquel e, apesar da dificuldade de processamento, podem ser utilizados na fabricação de objetos.
Na Idade do Bronze, o ferro obtido a partir de meteoritos era especialmente incomum. A produção de ferro a partir de minérios terrestres ainda não havia se tornado uma prática difundida, o que fazia do material encontrado em meteoritos um recurso raro e potencialmente muito valioso.
Segundo os pesquisadores, a presença dessas peças em contextos ligados à elite sugere que o ferro extraterrestre poderia ter adquirido um significado que ultrapassava sua função como matéria-prima. Os anéis provavelmente funcionavam também como símbolos de autoridade e prestígio entre pessoas de destaque das sociedades minoica e micênica.
A localização dos objetos reforça essa possibilidade. Com exceção de uma peça, os anéis estavam relacionados a sepultamentos da fase final da Idade do Bronze e apareciam junto de outros itens valiosos, como vasos de ouro, objetos de âmbar e selos de pedra.
Joias associadas à elite
Os possíveis anéis meteoríticos também chamam atenção pela sofisticação. As 13 peças identificadas eram confeccionadas com ferro rico em níquel combinado, em muitos casos, com ouro, prata ou bronze.
Grande parte apresentava ainda um engaste, estrutura destinada a receber uma pedra ou elemento decorativo. Em algumas peças, essa área poderia ter sido utilizada como sinete, um tipo de selo relacionado à identificação e à autoridade de seu proprietário.
Um dos exemplares mais intrigantes foi encontrado em Anemospilia, na ilha de Creta. O objeto ainda estava no dedo de um indivíduo que os pesquisadores consideram possivelmente um sacerdote.
A concentração dessas peças em sepultamentos de alto prestígio leva os cientistas a considerar que o ferro meteorítico tinha valor simbólico. A origem incomum do material pode ter ajudado a demonstrar riqueza, posição social e influência.
Como os pesquisadores identificaram o material
Para investigar os artefatos sem provocar danos significativos, a equipe utilizou a fluorescência de raios X, conhecida como XRF. A técnica permite identificar elementos químicos presentes na superfície dos objetos e é bastante utilizada na arqueologia por possibilitar o estudo de peças raras sem a necessidade de retirar grandes amostras.
O níquel foi uma das principais pistas para determinar a possível origem do metal. Como esse elemento aparece em muitos meteoritos de ferro, sua concentração em determinados objetos pode indicar que o material não foi obtido por meio dos processos tradicionais de extração e fundição de minério.
Dos 91 objetos analisados, 78 foram identificados como feitos de ferro fundido, e não de ferro meteorítico. Os pesquisadores estimam que a produção de ferro por fundição tenha começado na Grécia por volta de 1400 a.C., embora apenas dois dos objetos atribuídos ao ferro produzido por humanos sejam anteriores a 1200 a.C.
Os resultados indicam, portanto, que os dois tipos de ferro podem ter coexistido durante determinado período. Apesar disso, aparentemente tinham funções e valores distintos.
De onde vieram os meteoritos?
O estudo também levanta uma questão ainda sem resposta definitiva: qual seria a origem dos meteoritos utilizados na fabricação das joias?
Uma das hipóteses consideradas é que o material tenha vindo do Egito, onde existem grandes áreas desérticas. Regiões áridas favorecem a preservação de meteoritos porque apresentam menor umidade e, consequentemente, menos oxidação.
A hipótese também é compatível com as redes comerciais existentes no Mediterrâneo durante a Idade do Bronze. Minoicos e micênicos mantinham relações com diferentes regiões do Oriente Próximo, o que poderia ter permitido o transporte de materiais raros por grandes distâncias.
Uma moda que acabou
Além de ajudar a esclarecer a origem do metal, a pesquisa oferece pistas sobre transformações sociais e tecnológicas ocorridas na região. De acordo com os pesquisadores, o uso do ferro meteorítico diminuiu aproximadamente no mesmo período em que os centros palacianos minoicos e micênicos começaram a entrar em declínio.
Não há, porém, uma explicação única para o desaparecimento desse tipo de joia. Mudanças políticas, econômicas e sociais, dificuldades para obter meteoritos ou alterações nas redes de comércio podem ter influenciado o processo.
Os cientistas também consideram uma possibilidade mais simples: a prática pode ter desaparecido apenas porque deixou de estar na moda.
Quer mais notícias de curiosidades?Acesse nosso canal no WhatsApp
A descoberta mostra, assim, que o fascínio por materiais raros não é uma característica dos tempos modernos. Há milhares de anos, pedaços de metal que literalmente caíam do céu já podiam ser transformados em joias e utilizados por integrantes da elite como símbolos de riqueza, autoridade e distinção.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar