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"VOZES DA AMAZÔNIA INDÍGENA"

Projeto identifica primeiras pinturas rupestres no Alto Rio Negro

Achado integra projeto intercultural coordenado pelo Museu Goeldi e revela novos dados sobre a ocupação ancestral da Amazônia

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Imagem ilustrativa da notícia Projeto identifica primeiras pinturas rupestres no Alto Rio Negro camera Projeto busca fortalecer estratégias de preservação baseada nos conhecimentos partilhados durante gerações. | Foto e D-Stretch/ywe: Raoni Valle/Vozes da Amazônia Indígena)

Em uma das áreas mais remotas do noroeste da Amazônia, na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), pesquisadores identificaram o primeiro registro conhecido de pinturas rupestres na região, em sítios sagrados dos povos Baniwa e Koripako. Localizado no município de São Gabril, em uma região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, o achado é visto como um marco para os estudos sobre a ocupação humana antiga na bacia amazônica brasileira.

A descoberta faz parte dos resultados iniciais do projeto “Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do antropoceno”, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A iniciativa reúne cerca de 100 pesquisadores indígenas e não indígenas, de mais de 20 instituições científicas e comunidades tradicionais distribuídas em três territórios amazônicos: Alto Rio Negro, no Amazonas; Terra Indígena Kayapó, no Pará; e Terra Indígena Xingu, no Mato Grosso.

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No Alto Rio Negro, o trabalho de campo realizado ao longo do primeiro ano do projeto envolveu três expedições, nas quais equipes multidisciplinares atuaram em atividades de escavação, levantamento geoarqueológico, análises paleoecológicas e documentação de sítios em áreas de difícil acesso. Foi durante esse processo, na região do rio Içana, afluente do rio Negro, que os pesquisadores identificaram os primeiros sítios com pinturas rupestres da área.

Além do impacto científico, o projeto também possui uma dimensão cultural e espiritual. Segundo os pesquisadores, os sítios arqueológicos estão inseridos em áreas consideradas sagradas pelas comunidades locais. Por decisão dos próprios indígenas da Tiarn, o acesso ao local foi restrito exclusivamente aos participantes do projeto.

“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos. Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora”, disse o pesquisador indígena Sidney Baniwa, intregante da equipe do projeto.

Além disso, os pesquisadores envolvidos destacam que o achado deve ser interpretado com cautela, evitando a ideia de “descoberta” no sentido colonial do termo, já que os locais são historicamente conhecidos pelas populações indígenas.

“Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado”, reforçou o arqueólogo Raoni Maranhão Valle.

Ainda de acordo com os pesquisadores, os vestígios reforçam a hipótese de ocupações humanas antigas e contínuas na Amazônia, além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade de expressões gráficas pré-históricas na região. Segundo a pesquisa, as pinturas apresentam predominância de pigmentos vermelhos e amarelos, possivelmente produzidos a partir de óxidos de ferro, e estão parcialmente recobertas por líquens, indicando longa exposição às condições ambientais atuais.

O material identificado inclui figuras geométricas e possíveis formas biomórficas, sem representações humanas ou animais claramente definidas até o momento. Contudo, há hipóteses que indicam que os sítios podem ter sido produzidos entre 8.000 e 4.000 anos atrás, com base em análises ambientais e na formação de camadas biológicas sobre os pigmentos.

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Além disso, os pesquisadores destacam que o achado pode indicar a existência de um padrão ainda pouco conhecido de arte rupestre na Amazônia, em que os grafismos dialogam com as formas naturais das rochas, sugerindo uma relação simbólica entre paisagem e produção cultural.

O projeto também busca reforçar a importância de compreender esses registros a partir de uma perspectiva intercultural, considerando que os sítios são conhecidos e valorizados pelos povos indígenas há gerações, integrando narrativas orais, práticas espirituais e relações ancestrais com o território.

Paralelamente ao trabalho no Alto Rio Negro, o projeto “Vozes da Amazônia Indígena” também desenvolve pesquisas na Terra Indígena Kayapó e na Terra Indígena Xingu. Nessas áreas, as ações contam com o uso de tecnologias como o Lidar, que permite mapeamentos topográficos de alta precisão.

Com duração prevista de 36 meses e apoio de diferentes agências de fomento brasileiras e internacionais, o projeto integra o Museu Goeldi, o Museu da Amazônia (Musa), universidades federais e estrangeiras, além de organizações indígenas. Além da produção científica, a iniciativa prevê também ações educativas, oficinas comunitárias e a criação de materiais bilíngues voltados à educação indígena, como dicionários, mapas interativos e registros culturais.

Para os pesquisadores, o objetivo do projeto vai além da arqueologia e busca compreender a Amazônia como um “mosaico de florestas culturais”, resultado de milhares de anos de interação entre povos e ambiente, além de fortalecer estratégias de preservação baseadas nesse conhecimento compartilhado.

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