Neste domingo (10), muitas famílias celebram o Dia das Mães, data tradicionalmente associada a homenagens, flores e demonstrações de afeto. Mas, para além das comemorações, existe uma maternidade vivida no cotidiano, marcada por responsabilidades contínuas, reorganização constante da rotina e uma forma de amor que também se expressa no cansaço, na persistência e na adaptação diária.
Na maternidade atípica, essa realidade ganha ainda mais intensidade. O dia a dia é construído entre terapias, consultas médicas, acompanhamentos escolares e a necessidade constante de lidar com o inesperado. Ainda assim, o amor materno permanece como base, acompanhado da responsabilidade e da busca por caminhos que, muitas vezes, não vêm acompanhados de orientação adequada ou rede de apoio suficiente.
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A bancária Cristiany Gama, mãe de Roberta, de 13 anos, lembra que o início dessa jornada veio ainda no nascimento da filha, quando a suspeita de Síndrome de Down foi comunicada no hospital. O impacto inicial, segundo ela, veio acompanhado de dor, mas também de um movimento imediato de acolhimento e reconstrução emocional.
“Eu chorei muito, não esqueço nunca. Mas quando peguei ela no colo, vi que era perfeita. Eu pensei: se Deus me deu assim, Ele vai me conduzir”, disse.

A partir dali, ela conta que a rotina da família passou a ser reorganizada em função das necessidades da filha. Cristiany relata que, no início, havia pouca informação disponível e um cenário ainda distante de práticas inclusivas consolidadas. “No ano em que ela nasceu ainda era tudo muito fechado. Faltava informação, faltava preparo. E muita gente ainda olhava sem entender o que era a síndrome”, compartilhou.
Com o tempo, entre o trabalho no banco e os acompanhamentos terapêuticos, ela precisou aprender na prática como lidar com uma realidade até então desconhecida. As terapias incluíram acompanhamento fonoaudiológico, fisioterapia e estímulos precoces, que foram fundamentais no desenvolvimento de Roberta.
Cristiany também relata desafios importantes no ambiente escolar, onde a inclusão, segundo ela, nem sempre se concretiza na prática. “A inclusão muitas vezes fica só no papel. Quando a gente vai atrás, percebe que ainda existe muito despreparo”, disse.
Hoje, ao falar sobre a filha, ela reforça o cuidado com a autonomia, sem deixar de lado a atenção constante. “Eu incentivo a independência dela, mas sempre acompanhando, porque o mundo exige cuidado. Ela está entrando na pré-adolescência e tudo precisa de ainda mais atenção”, compartilhou.

Em outra realidade, a rotina de Ana Carolina Reis, 32 anos, mãe de Luis Arthur, de 7 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos 2, também foi completamente reorganizada após o diagnóstico. Ela lembra o momento como um choque emocional, acompanhado da ausência total de informação naquele primeiro instante.
“Foi um choque, um misto de sentimentos. Desespero e uma força que eu nem sabia que tinha. Naquele momento não havia informação nenhuma”, reforça ao lembrar do sentimento ao receber o diagnóstico do filho.

Desde então, o cotidiano passou a ser estruturado em função das necessidades de Luiz, com dias que começam antes do amanhecer e seguem sem pausas definidas. As terapias fazem parte central da rotina, incluindo acompanhamento em centros especializados.
“Na maternidade atípica não existem dias comuns. Os desafios são diários. É levantar depois de uma noite muitas das vezes mal dormida, pois meu menino tem distúrbio do sono, leva pra terapia, trava uma batalha pra que ele consiga se alimentar, porque também lutamos com seletividade alimentar, levá-lo pra escola e orar pra que tudo ocorra bem", conta
Ana Carolina compartilha também que por conta dos cuidados e da rotina, acabou deixando o trabalho fora de casa para se dedicar integralmente ao filho, o que ampliou a sobrecarga emocional e a sensação de isolamento as vezes. “Hoje eu não trabalho fora. Sinto falta disso, mas sei que nesse momento ele precisa de mim o tempo todo”, disse.
No meio dessa rotina, ela destaca a importância das conexões com outras mães que também vivem experiências semelhantes, especialmente em grupos de apoio. “Os grupos de mães atípicas muitas vezes são o nosso único apoio. É onde a gente se entende sem precisar explicar muito”, ressalta.
Contudo, ela também relata episódios de julgamento em espaços públicos, principalmente relacionados ao desconhecimento sobre o autismo.
“O autismo não aparece. Já senti olhares de julgamento só por estar em uma fila de prioridade. Acham que ele não tem esse direito. Sofremos com a falta de empatia de algumas pessoas e o achar que eles são incapaz por serem autista", disse.
Cuidado que atravessa o tempo
A experiência de Lygia Barretos, 55 anos, empresária, mãe de Pilar, de 27, amplia o olhar sobre a maternidade atípica ao trazer a realidade da vida adulta. Pilar foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD)após anos de investigação médica e diferentes hipóteses até a confirmação do quadro.
Para Lygia, o processo foi longo e emocionalmente desgastante, em uma época em que o tema ainda era pouco discutido e cercado de incertezas. “Na época, o médico disse que estávamos em um poço muito escuro e fundo, mas que existia um fiozinho de corda”, lembrou.
Além de Pilar, Lygia também é mãe de Pietra, filha mais velha. Com o diagnóstico confirmado, a família precisiou reorganizar completamente a rotina. Ela passou a se dedicar integralmente ao desenvolvimento da filha, em um processo que envolveu anos de terapias intensivas, reestruturação familiar e acompanhamento constante.

Segundo ela, a rotina exigiu também uma mudança importante na dinâmica de marido e mulher: o pai das meninas, César, teve papel decisivo nesse processo, ajustando a vida profissional para estar mais presente no cotidiano da filha e ao lado de Lygia, especialmente após orientação médica. “A presença do pai faz muita diferença. Ele foi e é um marido excepcional nesse processo. Mudou a rotina dele por ela, passou a almoçar em casa e estar mais presente. Isso fez diferença para a família”, contou.
Ela reforça que a presença paterna ajudou a sustentar parte da estrutura emocional da família em um período de intensa sobrecarga sob a maternidade. “A gente só conseguiu atravessar muitas fases porque não foi um caminho sozinha”, afirmou.

Hoje, Pilar é adulta, formada em moda e inglês, e desenvolveu diversas habilidades ao longo da vida. Contudo, Lygia reforça que, apesar das conquistas, a família ainda enfrenta desafios relacionados à autonomia e à vida social fora do ambiente familiar.
Como é comum entre mães, Lygia se preocupa constantemente com o futuro da filha. Esse pensamento é reforçado pelo diagnóstico de autismo e pela realidade da sociedade. “Meu maior medo é morrer e não saber quem vai cuidar dela”, compartilha.
Ela também aponta que, apesar de avanços, ainda há desconhecimento e preconceito em relação a pessoas com transtorno do espectro autista. Ela descreve sua vivência como um processo contínuo de resistência e transformação pessoal. “Eu me vejo como uma leoa. Eu tento dar conta de tudo por elas”, afirmou.
Lygia diz que, ao longo dos anos, aprendeu a olhar para a própria trajetória com menos culpa e mais compreensão. Ao lembrar do início, ela reconhece o quanto aquele momento parecia impossível, mas que foi atravessado dia após dia. “Se eu pudesse voltar lá atrás, eu diria: você está conseguindo, mesmo sem saber como”, reflete.
Ela acredita que essa percepção também pode alcançar outras mães que vivem o impacto do diagnóstico e o início de uma rotina totalmente desconhecida. Para Lygia, o tempo não elimina as dificuldades, mas transforma a forma de enfrentá-las. “É difícil, mas a gente atravessa. Um dia de cada vez”, resume.
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Entre a luta diária e o amor materno
As três histórias são exemplos de como a maternidade é vivida de forma permanente. Assim como pra Cristiany, Ana Clara e Lygia, para outras mães o cuidado não se encerra ao fim do dia e a rotina é constantemente reorganizada em função das necessidades dos filhos.
Entre infância, adolescência e vida adulta, o que permanece é a necessidade de adaptação contínua e de apoio suficiente para acompanhar o desenvolvimento do filho ao longo do tempo, que muitas vezes dependem do esforço das mães.
Ainda assim, entre os desafios diários, há vínculos que se fortalecem na prática contínua do cuidado. Um amor que não se limita à celebração de um dia, mas que se constrói na presença, na rotina e na persistência diária das mulheres.
Para Cristiany, esse amor se traduz em entrega e proteção. “É se doar com unhas e dentes. Me doar de todas as maneiras para ver a felicidade dela, o crescimento dela, lutar pelos direitos dela”, compartilha.
Já para Ana Carolina, o sentimento ganha a forma da resistência e do incondicional. “Amor materno é o maior amor do mundo. É incondicional e quando vem de uma maternidade atípica acredito que é maior ainda. Ele é força, é coragem e é cuidado. É matar uma manada de leões por dia e mesmo assim no final do dia, respirar e dizer obrigada", disse.
E, para Lygia, o amor materno se mistura à própria vivência diária e o desejo de que o filho conquiste o que sonha e esteja protegido sempre. “Eu faço tudo por elas. Eu vivo em função das minhas filhas. Tento dar conta de tudo por elas”, reforça.
Entre definições diferentes, a maternidade sempre se encontra no amor que se refaz todos os dias, na prática, na rotina, no cuidado e na presença constante mesmo quando o mundo ao redor ainda não sabe, por inteiro, como acolher essas histórias.
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