O Dr. Roger Normando Jr. é um cirurgião torácico paraense com mais de 30 anos de experiência, especialista em traumas torácicos, câncer de pulmão, doenças da traqueia, bronquiectasias e hiperidrose. Formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e com mestrado em Cirurgia Torácica pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atua como professor assistente da UFPA e médico no Hospital Universitário Barros Barreto. Também lidera casos complexos no Hospital Galileu, consolidando-o como referência em cirurgias de vias aéreas na região, e participa ativamente de congressos nacionais e internacionais.
É Justamente nesse ambiente de formação, prática e reflexão crítica sobre a medicina que surgem debates cada vez mais atuais, como os limites éticos da atuação médica nas redes sociais. E é no cotidiano do centro cirúrgico, entre a técnica e a responsabilidade, que essas inquietações ganham voz.
No bloco cirúrgico, enquanto o anestesiologista prepara a canulação da veia e a entubação, um cirurgião plástico é abordadono corredor de centro cirúrgico para comentar acerca do uso das redes sociais por médicos. Profetiza o aprendiz: “Professor, tô decepcionado. Eu não consigo entender como um cirurgião de rede social promete tanto com risco zero. Eu não consigo me ver nessa! É vender a alma pro cramulhão”.
O alerta do ex-aluno ecoa uma advertência feita nas páginas de Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C.S. Lewis. Lá, o parceiro de Tolkien constrói com maestria um demônio chamado Maldanado, que instrui seu sobrinho Vermelindo na arte de corromper almas humanas, tal qual um carnaval sem barulho; apenas serpentinas e confetes. Ele ensina a distorção sutil, a meia-verdade bem embalada, o apelo à emoção que contorna a razão: “Certifique-se de que elas sejam [suas orações inócuas] sempre muito espirituais, que sempre se preocupe com estado de espírito da mãe, e nunca com o reumatismo dela”.
Como assim, Maldanado? Esquecer a dor e achar que o analgésico é espiritual?
Um parêntese: nas redes sociais, a médica paraense que informou que o câncer de mama não existia e que o exame de mamografia causava inflamações não engajou e ainda foi condenada. Ela seria dispensada dos ensinamentos de Maldanado, por falta de oração inócua e por fazer carnaval sem serpentina e confetes, achando que só barulho lhe daria engajamento.
Lewis, em sua obra, encontrou o território fértil, o dos médicos nas redes sociais que cruzam a tênue fronteira entre a comunicação em saúde e o charlatanismo com harmonização facial. Maldanado, que não faz alarde, mistura o verdadeiro com o inquestionável, dá ao segundo a aparência de solidez do primeiro, e mantém o seguidor longe do pensamento crítico, mas perto de seu consultório, com a senha de seu cartão em mãos.
É exatamente assim a estrutura dos vídeos para os que prometem reverter doenças crônicas com protocolos exclusivos, revelar curas que a medicina tradicional esconde ou transformar diagnósticos complexos em postagem de cinquenta e nove segundos. O jaleco e o CRM exibidos no perfil funcionam como o prestígio que Maldanado tanto valoriza, dando o halo de autoridade que dispensa checagem. Vivemos essa pseudociência na Covid, por conta de uma fragilidade epidêmica.

O conteúdo de baixa qualidade científica nas redes embala roteiros de precisão perturbadora, ainda que haja pesquisadores procurando derrubar essas pseudoideias; um longo tempo se leva para desmascarar as farsas... Neste ínterim, alguns já entregaram suas senhas aos golpistas.
Na obra de Lewis, o inimigo legítimo deliberadamente ensina que a instituição torna-se o sistema, a evidência científica vira narrativa e o médico que discorda é alguém vendido à indústria. Esse movimento está em nichos inteiros das redes sociais dedicados à saúde, onde o rigor metodológico é apresentado como ingenuidade adocicada e o relato anedótico vem embalado como revelação.
O algoritmo, nesse quadro, não é vilão consciente, mas gera“engajamento”, que gera clientela, que gera fama, que gera grana. Não se distingue o endocrinologista que comunica ciência com rigor e o influenciador que vende protocolo de suplementos sem respaldo, alguns diretamente na veia, como nos tempos do coquetel vitamínico para os jogadores de futebol – que acabou gerando uma endemia de hepatite C. É sempre bom lembrar.
A pergunta que Lewis deixa, abarcando nosso tempo, é incômoda por ser simples: quem está escrevendo as cartas do diabo? A resposta não aponta apenas para os gentis “influencers” declarados, botocados e bombados, mas ao sistema em que o like vira moeda e a medicina vira conteúdo de fronteira apagada pelas baforadas da soberba.
O diabo, como Maldanado sempre soube, trabalha melhor quando ninguém percebe o que ele está arquitetando.
Médico Roger Normando especial para o DOL
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