Os escritórios públicos de Tóquio vivem uma mudança incomum neste verão. Pela primeira vez, servidores do governo japonês passaram a ser autorizados a usar shorts durante o expediente, uma medida adotada para enfrentar as temperaturas cada vez mais elevadas e reduzir o consumo de energia com ar-condicionado.
A flexibilização faz parte da campanha Cool Biz, criada pelo governo japonês para incentivar roupas mais leves no ambiente de trabalho durante os meses de calor. Tradicionalmente, a iniciativa recomendava o abandono de ternos e gravatas em favor de camisas polo, tecidos leves e calçados mais confortáveis. Agora, a liberação dos shorts representa um novo passo na adaptação ao clima extremo.
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Um dos primeiros a aderir foi Noboru Watanabe, servidor de 53 anos da área ambiental de Tóquio. Após mais de três décadas trabalhando de terno e gravata, ele afirma que a mudança trouxe mais conforto e até melhorou o relacionamento com os colegas. Segundo ele, o novo visual o faz parecer mais jovem e acessível, contribuindo para um ambiente de trabalho mais descontraído.
Apesar da proposta, a novidade dividiu opiniões no Japão. Enquanto parte dos funcionários aprovou a medida, outros consideram que usar shorts em um escritório ainda foge dos padrões tradicionais de formalidade. O debate também levantou questões sobre convivência e etiqueta nos ambientes profissionais.
A discussão ganhou força após a imprensa japonesa popularizar o termo "sune-hara", ou “assédio dos pelos da perna”, expressão usada para descrever o desconforto que algumas pessoas relatam ao ver as pernas peludas de colegas homens no ambiente de trabalho. O tema passou a ser debatido especialmente entre funcionárias, que apontam diferenças nas exigências estéticas impostas a homens e mulheres.
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Especialistas também questionam se a flexibilização beneficia igualmente ambos os sexos. Enquanto os homens passaram a ter mais liberdade para usar roupas leves, muitas mulheres continuam enfrentando pressão para utilizar meias-calças, saias ou manter padrões rigorosos de aparência, incluindo depilação e cuidados estéticos.
A política ganhou ainda mais importância diante das mudanças climáticas. O verão de 2025 foi o mais quente já registrado no Japão, e neste ano a Agência Meteorológica do país criou o termo "kokushobi", utilizado para classificar dias com temperaturas superiores a 40°C. Nos prédios públicos, os aparelhos de ar-condicionado permanecem regulados em 28°C entre maio e setembro como parte das medidas de economia de energia.
A mudança também movimentou o mercado de vestuário. Grandes redes japonesas passaram a lançar coleções específicas de shorts para escritório, com tecidos leves, modelagem discreta e comprimento adequado para manter a formalidade. Mesmo assim, a adesão ainda é tímida: em uma visita recente a um prédio do governo metropolitano de Tóquio, apenas 11 dos 70 funcionários homens utilizavam a peça durante o expediente, mostrando que a tradição ainda pesa na escolha das roupas no ambiente corporativo.
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