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QUANDO CADA MINUTO IMPORTA

Taura: tecnologia brasileira pode mudar o tempo dos transplantes no Brasil

Sistema utilizado no transporte de órgãos aumenta o tempo de preservação e pode beneficiar pacientes que aguardam na fila em diferentes regiões do país.

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Imagem ilustrativa da notícia Taura: tecnologia brasileira pode mudar o tempo dos transplantes no Brasil camera Desenvolvido pela empresa gaúcha Biotecno, o sistema Taura mantém órgãos em temperatura controlada entre 4°C e 10°C durante o transporte. | Mayra Monteiro e Reprodução

Após meses aguardando por um coração compatível, a família do pequeno Pedro, de quatro anos, recebeu a notícia de que mudaria sua vida. O órgão que poderia salvá-lo havia sido encontrado, mas estava a centenas de quilômetros de distância, no interior de Goiás. Até chegar ao receptor, em São Paulo, precisaria vencer um dos maiores desafios da medicina transplantadora: o tempo.

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Quando estamos na fila de transplante, aprendemos que cada minuto importa

Juliana Mathias, Mãe do Pedro
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O coração é um dos órgãos mais sensíveis ao período fora do corpo humano. No método tradicional de transporte, a janela segura de preservação gira em torno de quatro horas. Em trajetos longos, qualquer atraso pode comprometer a viabilidade do transplante.

No caso de Pedro, o órgão foi transportado utilizando o sistema Taura, tecnologia brasileira desenvolvida para ampliar o tempo de preservação de órgãos durante o deslocamento.

“Para a nossa família, não foi apenas uma caixa transportando um órgão. Foi a ponte que ligou duas famílias e permitiu que o Pedro recebesse a chance de continuar vivendo”, afirma Juliana Mathuias, mãe de Pedro.

Hoje, ao ver o filho celebrar os três meses do transplante, ela acredita que a combinação entre a solidariedade da família doadora, o trabalho das equipes médicas e os avanços tecnológicos foi decisiva para transformar o desfecho daquela história.

Pedro e sua Mãe, Juliana Mathias
📷 Pedro e sua Mãe, Juliana Mathias |Reprodução
O pequeno Pedro feliz após receber o novo coração
📷 O pequeno Pedro feliz após receber o novo coração |Reprodução

A fila por um transplante

A experiência vivida pela família de Pedro ajuda a ilustrar um desafio enfrentado diariamente pelo sistema de transplantes brasileiro. Embora o país possua o maior programa público de transplantes do mundo, milhares de pacientes ainda dependem de uma corrida contra o relógio para receber um órgão compatível.

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes, mais de 73 mil pessoas aguardavam na fila por um transplante ao final de 2025. No mesmo período, o país realizou cerca de 31 mil procedimentos, o maior número já registrado, com crescimento de 21% em relação a 2022.

Entre os pacientes que viveram essa espera está o paraense Raimundo Luiz Abreu da Freitas. Diagnosticado com hepatite C em 2013, ele enfrentou anos de tratamento, internações frequentes e o agravamento progressivo da doença até que o transplante se tornou sua única alternativa. “Eu vi realmente meus sonhos se acabando”, relembra.

Em fevereiro de 2025, a ligação que aguardava finalmente chegou. “Eu não sabia se chorava ou se sorria. Foi uma felicidade imensa saber que tinha surgido um órgão compatível”, conta ele.

A transplantada Railene Alencar, bióloga, 42 anos, também conhece a angústia da espera. A paraense permaneceu seis anos na fila por um fígado. “A cada minuto que passa é menos um tempo de vida que você tem. Você não sabe se vai aparecer alguém compatível a tempo”, afirma ela.

A bióloga Railene Alencar enfrentou seis anos na fila de transplantes até receber um fígado compatível.
📷 A bióloga Railene Alencar enfrentou seis anos na fila de transplantes até receber um fígado compatível. |Mayra Monteiro

Para a paraense, os avanços tecnológicos representam uma esperança a mais para quem aguarda por um órgão.

“A tecnologia tem avançado cada vez mais para dar uma nova oportunidade de vida às pessoas que precisam de um transplante. Quem está na fila enfrenta muitos desafios, desde encontrar um órgão compatível até garantir que ele chegue em tempo hábil para o procedimento. Eu fiz meu transplante há mais de 15 anos e, naquela época, a logística era muito mais complicada. Quando recebi a ligação, precisei chegar rapidamente ao hospital, porque o tempo de preservação dos órgãos é muito curto", recorda ela.

Para Railene, iniciativas como o Taura são importantes, 'uma vez que a tecnologia desenvolvida ajuda justamente a ampliar o tempo e a qualidade de conservação dos órgãos, aumentando as chances de que eles cheguem em condições adequadas aos pacientes". A paraense destaca ainda, que além de ser uma inovação brasileira, tem potencial para ampliar o número de transplantes realizados. "Tudo o que contribui para melhorar esse processo representa mais esperança para quem espera por uma segunda chance de viver. E posso dizer, por experiência própria, que a vida depois do transplante não tem comparação”, celebra ela.

Desenvolvido pela empresa gaúcha Biotecno, o sistema Taura mantém órgãos em temperatura controlada entre 4°C e 10°C durante o transporte.
📷 Desenvolvido pela empresa gaúcha Biotecno, o sistema Taura mantém órgãos em temperatura controlada entre 4°C e 10°C durante o transporte. |Mayra Monteiro

Em 2023, a paciente Luna Maria estava internada em um hospital particular de Belém após sofrer uma isquemia cerebral. Ela chegou a passar por três cirurgias, mas não resistiu.

Naquele momento de dor, a família autorizou a doação dos órgãos. Os rins, o fígado e as córneas puderam beneficiar pacientes no Pará. O coração, porém, tinha como destino uma paciente que aguardava transplante em Fortaleza, no Ceará, referência mais próxima para esse tipo de procedimento.

A distância e o curto tempo disponível para a preservação do órgão impediram que o transporte fosse realizado a tempo, inviabilizando o transplante.

Ao conhecer a tecnologia Taura, desenvolvida para ampliar o tempo de conservação dos órgãos durante o transporte, o familiar Marcel Fromigosa acredita que a história poderia ter sido diferente.

“Quando soube dessa tecnologia, pensei imediatamente na Luna. Na época, o coração dela poderia ajudar outra pessoa, mas a distância e o tempo jogaram contra. Acho que, se esse equipamento já existisse e estivesse disponível, teria havido uma chance maior de esse transplante acontecer e de salvar uma vida”, afirma.

Sistema Taura

As histórias de Pedro, Raimundo, Railene e Luna Maria revelam diferentes faces de uma mesma realidade: a necessidade de fazer com que um órgão compatível chegue ao paciente dentro de um prazo extremamente limitado.

É justamente para enfrentar esse desafio que especialistas vêm apostando em novas tecnologias de preservação.

Desenvolvido pela empresa gaúcha Biotecno, o sistema Taura mantém órgãos em temperatura controlada entre 4°C e 10°C durante o transporte. A proposta é reduzir danos associados às oscilações térmicas e ampliar a janela de preservação, especialmente para órgãos mais sensíveis, como o coração.

Segundo Juglans Alvarez, diretor cirúrgico do Programa de Transplantes Cardíacos do Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, a limitação do tempo de preservação ainda restringe o alcance da rede transplantadora brasileira.

“Hoje, o transporte de órgãos funciona sob uma janela extremamente curta. No caso do coração, o tempo seguro gira em torno de quatro horas. Em um território continental como o brasileiro, isso limita a possibilidade de captações em estados distantes dos grandes centros transplantadores”, explica.

Os primeiros resultados clínicos envolvendo a tecnologia foram obtidos em uma série realizada pelo Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul e pelo Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. Segundo os pesquisadores, os dados iniciais apontam aumento do tempo de preservação e redução das taxas de disfunção primária do enxerto.

“Pudemos ir mais longe buscar órgãos e os resultados melhoraram”, afirma Alvarez.

Veja o vídeo:


DOL

Impacto da tecnologia em pacientes da Amazônia

Para especialistas, o impacto pode ser ainda mais relevante em regiões como a Amazônia, onde as grandes distâncias e os desafios logísticos frequentemente dificultam o transporte de órgãos entre estados.

Paulo Roberto Coelho, consultor de Negócios da Biotecno
📷 Paulo Roberto Coelho, consultor de Negócios da Biotecno |Mayra Monteiro

A expectativa é que o aumento da capacidade de preservação permita uma distribuição mais eficiente dos enxertos, ampliando as possibilidades de transplante para pacientes que aguardam na fila.

Em um sistema onde cada minuto pode significar a diferença entre a vida e a morte, a aposta da comunidade médica é que avanços como o Taura ajudem a transformar distância em oportunidade e façam com que mais histórias tenham o mesmo desfecho de Pedro: uma nova chance de viver.

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