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OPINIÃO

Quando a gratidão vira discurso e deixa de ser prática no Paysandu

O caso Pikachu e a demissão de Seu Ivan colocam em debate o valor que o clube atribui à própria memória.

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Imagem ilustrativa da notícia Quando a gratidão vira discurso e deixa de ser prática no Paysandu camera Seu Ivan, Pikachu e o limite do discurso da gratidão | Paysandu / Raul Martins - Remo

No futebol, a palavra "gratidão" costuma aparecer nos momentos de ruptura. É evocada quando um ídolo sai, quando um vínculo simbólico se rompe, quando a emoção fala mais alto que o contrato. Nos últimos dias, ela ganhou protagonismo no Paysandu, mas não exatamente pelo melhor motivo.

A chegada de Yago Pikachu no Clube do Remo, maior rival bicolor, provocou reações intensas. O clube deixou de seguir o jogador nas redes sociais digitais, dirigentes falaram em ingratidão e parte da torcida se revoltou com declarações do atleta.

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Os gestos foram simbólicos, mas carregados de mensagem: havia um rompimento definitivo. O problema é que, quase ao mesmo tempo, o Paysandu tomou uma decisão que escancarou uma contradição difícil de ignorar.

Dois pesos, duas medidas

Enquanto se cobrava gratidão de um jogador que cumpriu contratos, entregou desempenho e seguiu a carreira profissional, o clube encerrava o vínculo com Ivan Ferreira Menezes, o "Seu Ivan", massagista que dedicou mais de 30 anos da vida ao Paysandu.

Três décadas. Bastidores. Silêncio. Cuidado diário com gerações de atletas. Presença constante nas maiores conquistas do clube. Um personagem que nunca esteve nas manchetes, mas sempre esteve lá.

A demissão foi confirmada em nota oficial e comentada pelo presidente Márcio Tuma, que reconheceu publicamente a contribuição de Seu Ivan, mas optou por justificar a decisão a partir de um argumento estritamente financeiro.

Ao afirmar que "não adianta nada a gente ter pessoas aqui que agregam, que colaboram, se eu não consigo pagar". A frase expõe a realidade financeira do clube, é verdade. Mas também levanta uma pergunta inevitável: onde fica a gratidão quando ela não é conveniente?

O dirigente acabou reduzindo uma trajetória de mais de três décadas a uma lógica de viabilidade econômica. compreensível no contexto administrativo, mas insuficiente para dar conta do peso simbólico e histórico de um profissional que se confundiu com o cotidiano do clube.

Gratidão não é exclusividade de ídolos

Yago Pikachu é cria da base, fez história, foi artilheiro, virou ídolo. Mas também foi jogador profissional, com carreira construída fora da Curuzu, em clubes maiores, com títulos, estabilidade e reconhecimento nacional. A escolha pelo Remo pode ser dolorosa para o torcedor e dirigentes, mas não apaga o que foi feito, nem cria uma dívida eterna.

Já Seu Ivan nunca teve holofotes, contratos milionários ou margem para "escolher projetos". A carreira foi construída exclusivamente no Paysandu. E, ao contrário de tantos jogadores que passaram pelo clube nas últimas décadas sem entregar resultado, ele nunca deixou de cumprir a função que lhe foi imposta.

Não ganhava salário astronômico. Não pesava no orçamento como contratações equivocadas que passaram, falharam e seguiram adiante. Ainda assim, foi dispensado em nome da contenção de gastos.

O discurso que cobra, mas não retribui

O futebol vive de símbolos. E o Paysandu, historicamente, sempre se orgulhou de ser um clube de identidade, de raiz popular, de memória forte. Justamente por isso, o discurso sobre gratidão precisa ser coerente com a prática.

Quando o clube cobra consideração pública de um atleta, mas não encontra meios de preservar, ou ao menos valorizar de forma mais profunda, alguém que dedicou a vida inteira à instituição, o argumento perde força.

Não se trata de negar a crise financeira. Nem de romantizar relações de trabalho. Trata-se de entender que gratidão não pode ser seletiva, nem usada apenas quando convém ao debate emocional com a torcida.

Uma reflexão necessária

O episódio envolvendo Yago Pikachu gerou barulho. O de Seu Ivan, silêncio. E talvez aí esteja o ponto central dessa história. No futebol moderno, jogadores passam. Funcionários e torcedores ficam. São eles que sustentam a identidade do clube nos momentos de glória e nos de queda.

Quando esses personagens são tratados como números, enquanto se exige lealdade simbólica de quem seguiu o curso natural da profissão, algo está fora de lugar.

O Paysandu tem todo o direito de se reorganizar, cortar gastos e reconstruir o caminho. Mas, se quiser seguir cobrando gratidão, precisa, antes de tudo, praticá-la, especialmente com quem nunca virou as costas. Porque, no fim das contas, a memória de um clube não se constrói apenas com gols. Se constrói, principalmente, com quem esteve lá quando não havia aplausos.

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