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Uefa, AFC e Concacaf se unem contra Infantino e pedem investigação na Fifa

Confederações criticam condução de proposta bilionária envolvendo direitos comerciais e defendem apuração externa sobre decisões da entidade

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Imagem ilustrativa da notícia Uefa, AFC e Concacaf se unem contra Infantino e pedem investigação na Fifa camera Uefa, AFC e Concacaf pedem investigação independente sobre Fifa. | Divulgação/Fifa

A crise envolvendo a Fifa e a gestão de Gianni Infantino ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (10). Uefa, Confederação Asiática de Futebol (AFC) e Concacaf divulgaram uma carta conjunta na qual questionam a condução da entidade e defendem uma investigação realizada por uma organização terceira e totalmente independente.

Embora Infantino não seja citado nominalmente no documento, as críticas estão relacionadas à forma como a Fifa conduziu a proposta de venda de uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios. A iniciativa previa a arrecadação de cerca de US$ 4,2 bilhões, aproximadamente R$ 24,8 bilhões, mas acabou abandonada após gerar forte reação dentro e fora da estrutura da entidade.

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Na avaliação das três confederações, o episódio ultrapassou uma simples questão de comunicação. Uefa, AFC e Concacaf afirmam que houve falha de julgamento e criticam a ausência de uma consulta ampla às federações e instituições envolvidas no futebol. De acordo com as entidades, uma comunicação recente enviada pela Fifa aos vice-presidentes e às 211 federações-membro reconheceu problemas no processo, mas classificou o episódio como uma falha de comunicação.

Uefa, AFC e Concacaf discordam dessa interpretação. Segundo elas, a proposta foi apresentada em um prazo curto e sem uma consulta significativa, antes que as federações-membro tivessem condições de avaliar adequadamente os termos da operação. As confederações sustentam ainda que a discussão não deve ser tratada apenas sob o ponto de vista financeiro.

Confederações contestam versão da Fifa e pedem investigação externa

Para elas, o episódio envolve questões relacionadas à integridade, à governança e à responsabilidade dos dirigentes que ocupam posições de liderança no futebol mundial. No documento, as três entidades defendem que os acontecimentos sejam analisados por uma organização independente. A proposta é que nem a administração da Fifa, seus funcionários ou outras partes diretamente interessadas participem da condução da investigação.

A Fifa havia se comprometido a apresentar um relatório sobre o episódio ao Conselho da entidade. Para Uefa, AFC e Concacaf, entretanto, a dimensão do caso exige uma apuração externa e independente. As confederações também fizeram questionamentos sobre uma reunião de liderança realizada no Marrocos. Segundo elas, apenas um dirigente eleito participou do encontro, sem a presença de integrantes do Conselho da Fifa ou de representantes das federações-membro.

Fifa diz haver tentativa de enfraquecer Infantino

A entidade máxima do futebol mundial afirmou, no sábado (8), que existe um “esforço coordenado e contínuo” para enfraquecer a posição de Gianni Infantino. A Fifa defendeu que qualquer contestação à liderança do presidente deve seguir os estatutos e os procedimentos democráticos previstos pela própria organização. A entidade também afirmou que algumas das alegações divulgadas recentemente são infundadas ou falsas.

A Fifa não apontou quem estaria por trás das supostas tentativas de enfraquecer Infantino e ressaltou que o dirigente continua exercendo o mandato para o qual foi eleito. Na carta, Uefa, AFC e Concacaf fizeram questão de destacar que não questionam decisões tomadas de forma coletiva dentro da estrutura da Fifa. Entre os exemplos citados estão a expansão das competições, a distribuição de vagas para a Copa do Mundo e a escolha das sedes dos Mundiais de 2030 e 2034.

Confira a carta na íntegra

“Querida Família do Futebol,

O futebol é a maior paixão partilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.

Pertence aos jogadores, aos adeptos, aos clubes, às Federações-Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro.

É nesse espírito, na qualidade de confederações que representam os seus membros, que hoje nos pronunciamos coletivamente.

O crescimento registado na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de uma única pessoa. Foi o resultado do trabalho da Fifa, das Confederações, das Federações-Membro e dos milhares de pessoas que dedicam as suas vidas ao futebol.

A ampliação dos torneios, a atribuição dos Campeonatos do Mundo da Fifa de 2030 e 2034 e a distribuição de recursos às federações. Estas foram conquistas partilhadas, acordadas em conjunto e concretizadas em conjunto.

Isto não tem a ver com dinheiro. As Confederações já apelaram a uma distribuição responsável das vastas reservas existentes da Fifa, com vista a reforçar ainda mais o investimento no desenvolvimento das Federações-Membro.

Também não se trata de nenhuma Federação-Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros para sugerir o contrário. Nem se trata de rever a expansão das competições, a atribuição de vagas para o Campeonato do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.

Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para o liderar.

A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter, nem de exigir, o poder para o deter. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia.

Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.

A recente carta da Fifa aos seus vice-presidentes e às 211 federações-membro reconhece que foram cometidos erros ao longo do processo. A carta aborda esta situação como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de discernimento.

Uma proposta apresentada num prazo apertado, sem uma consulta significativa e levada a cabo antes de as federações-membro poderem analisar devidamente os seus termos, não é fruto de um descuido: é o resultado de uma estratégia destinada a limitar o escrutínio.

Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Continua a não haver qualquer reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação no Campeonato do Mundo da Fifa constituiu um grave erro de avaliação, não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental da confiança das próprias instituições que a Fifa existe para servir.

A Fifa comprometeu-se também a apresentar um relatório completo sobre estes acontecimentos ao Conselho da Fifa, deixando mais uma vez de reconhecer que uma governação adequada, face a uma falta de discernimento tão grave, exigiria que tal análise fosse conduzida por uma entidade terceira totalmente independente e não pela própria Fifa, pelo seu pessoal ou por qualquer parte interessada do mundo do futebol.

A administração da Fifa não deve desempenhar qualquer papel na condução dessa análise.

Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser conservados em conformidade com a comunicação da Uefa sobre a conservação de documentos.

A própria carta da Fifa confirma também que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da Fifa nem das Federações-Membro foi convidado a participar. Apenas o comité de gestão, composto por quadros superiores ao serviço da Fifa, esteve presente.

Esta recente reunião, em que um número restrito de membros do Comité de Gestão da Fifa, e não o Comité na sua totalidade, foi convocado no estrangeiro, em vez de os dirigentes se deslocarem a Zurique para se dirigirem ao coração da Fifa, apenas reforça estas preocupações e representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento.

Não é a conduta de um guardião do futebol, mas sim de alguém que acredita que o futebol lhe deve prestar contas.

Há silêncio onde deveria haver responsabilização, e distância onde deveria haver abertura.

Estas não são as qualidades que o futebol merece na sua liderança. É por isso que assumimos esta posição: não de ânimo leve nem sozinhos, mas em conjunto, e por um sentido de dever para com o desporto que servimos.

A força do futebol sempre residiu na sua unidade. Apelamos a que essa unidade seja agora respeitada e a que haja uma liderança que sirva o futebol, em vez de procurar dominá-lo.”

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