A Fifa enfrenta um momento de forte turbulência política após o presidente Gianni Infantino abandonar o projeto que previa a abertura dos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outras competições ao capital privado. A decisão provocou uma onda de críticas de confederações e aliados, enfraqueceu a liderança do dirigente suíço e colocou em dúvida seus planos para uma nova reeleição à presidência da entidade.
Desde que assumiu o comando da Fifa, em 2016, Infantino acumulou conquistas políticas e administrativas, como a ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções e o aumento das receitas da entidade. No entanto, a retirada do projeto da Fifa Forward Enterprise (FFE) representa a primeira grande derrota de sua gestão.
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A resistência ao plano ultrapassou a oposição tradicional da Uefa e alcançou integrantes da própria estrutura da Fifa, dirigentes próximos ao presidente e representantes de diversas confederações, evidenciando um desgaste inédito em sua base de apoio.
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PROJETO DA FFE PREVIA GESTÃO COMERCIAL POR NOVA EMPRESA
A proposta previa a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa responsável por administrar os direitos comerciais das principais competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo. O modelo abriria espaço para investidores privados em troca de um aporte bilionário, recursos que seriam utilizados para ampliar investimentos em projetos da Fifa e aumentar os repasses financeiros às associações nacionais.
Nos bastidores, havia especulações de que a nova empresa também poderia representar um novo destino para Infantino após deixar a presidência. O dirigente poderia assumir funções como comissário ou CEO da estrutura, mantendo influência sobre a exploração comercial do futebol mundial. Com o abandono da proposta, esse cenário praticamente deixou de existir.
RUMORES SOBRE FUTURO FORA DO FUTEBOL TAMBÉM PERDEM FORÇA
Outro caminho cogitado nos últimos meses envolvia uma eventual atuação em organismos internacionais. Circularam especulações de que Infantino poderia disputar o cargo de secretário-geral da ONU, hipótese que ganhou repercussão após ser mencionada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Embora nunca tenha existido confirmação oficial, especialistas apontam que a crescente aproximação do dirigente com chefes de Estado e sua atuação política durante as últimas Copas alimentaram essas possibilidades.
Para o advogado especializado em Direito Desportivo Internacional, Eduardo Carlezzo, o interesse não surpreenderia diante das articulações políticas desenvolvidas por Infantino nos últimos anos.
REELEIÇÃO PASSA A ENFRENTAR OBSTÁCULOS
Até poucos dias atrás, a expectativa era de que Infantino disputasse praticamente sem concorrência um quarto mandato na presidência da Fifa, com duração prevista até 2031.
No entanto, a reação negativa ao projeto da FFE alterou esse cenário. O advogado e especialista em Direito Desportivo Andrei Kampff avalia que as críticas deixaram de partir apenas de adversários históricos e passaram a atingir aliados, federações e confederações que tradicionalmente apoiavam a atual administração.
Segundo ele, o desgaste compromete não apenas a proposta rejeitada, mas também a forma como a liderança de Infantino passou a ser percebida dentro da entidade. Carlezzo compartilha avaliação semelhante e considera que o apoio político anteriormente consolidado pode ter sido abalado, abrindo espaço para que a Uefa trabalhe na construção de uma candidatura de oposição para a próxima eleição.
UEFA ENDURECE DISCURSO CONTRA PRESIDENTE DA FIFA
A resposta da Uefa foi imediata após o anúncio da retirada definitiva do projeto. Em nota, a entidade europeia criticou a condução das discussões e questionou a falta de transparência durante o processo. "Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los."
Para Kampff, mesmo com o recuo, o desgaste institucional permanece, já que a crise expôs problemas relacionados ao processo de tomada de decisões dentro da Fifa.
EUROPA DEBATE POSSIBILIDADE DE AFASTAMENTO
O clima de insatisfação ganhou novos contornos após reportagem do jornal britânico The Telegraph, segundo a qual dirigentes europeus discutem formas de retirar Infantino da presidência caso ele tente permanecer no cargo.
De acordo com a publicação, as 55 federações filiadas à Uefa estariam dispostas a apoiar um processo de destituição. Para que a votação fosse iniciada, seriam necessários os votos favoráveis de 43 associações nacionais.
Apesar das discussões, ainda não existe qualquer procedimento formal em andamento. Além disso, informações apuradas pelo *Estadão* indicam que o estatuto da Fifa não prevê um mecanismo semelhante a uma moção de censura contra seu presidente.
ISOLAMENTO POLÍTICO CRESCE APÓS REJEIÇÃO AO PROJETO
A crise ganhou dimensão internacional quando outras confederações também passaram a rejeitar a proposta da FFE. Além da Uefa, a Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) manifestaram oposição ao modelo de participação de investidores privados nos ativos comerciais da entidade.
Sem o respaldo dessas organizações, Infantino perdeu a maioria política necessária entre as 211 associações filiadas para aprovar a iniciativa.
ESPECIALISTAS COMPARAM EPISÓDIO AO FRACASSO DA SUPERLIGA
Para Eduardo Carlezzo, a velocidade com que o projeto perdeu sustentação lembra o fracasso da Superliga Europeia, anunciada em 2021 pelos principais clubes do continente. Na ocasião, a forte reação da Uefa, das ligas nacionais e de dezenas de clubes fez com que a competição praticamente ruísse em apenas 48 horas.
Na avaliação do especialista, o desfecho da proposta da Fifa segue dinâmica semelhante e evidencia como a resistência coordenada das principais entidades do futebol pode inviabilizar projetos considerados estratégicos, mesmo quando contam com o apoio da cúpula da organização.
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