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COLUNA JOÃO DE DEUSLOBATO

A energia por trás do Rock in Rio

Confira a coluna deste domingo (13/09) do engenheiro eletricista João de Deus Lobato, articulista do DOL e Diário do Pará.

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Imagem ilustrativa da notícia A energia por trás do Rock in Rio camera ( Divulgação / Instagram Rock in Rio)

Estive no primeiro Rock in Rio, em 1985. Quarenta e um anos depois, voltei à Cidade do Rock. Muita coisa mudou, mas a música, a multidão e a emoção continuam impressionantes. Desta vez, porém, talvez pela experiência de mais de quatro décadas acompanhando o setor elétrico, além dos artistas comecei a observar outro espetáculo: a energia necessária para fazer tudo aquilo funcionar.

A comparação ajuda a mostrar quanto o evento e a própria tecnologia evoluíram. Em 1985, quando iluminar a plateia já era uma inovação, mais de 3 mil refletores ajudavam a criar o espetáculo e 120 caixas formavam o sistema de som. Só a iluminação direcionada ao público chegava a cerca de 2 milhões de watts, potência que, à época, foi comparada à necessária para iluminar uma cidade de 60 mil habitantes.

Quatro décadas depois, a dimensão é outra. A Cidade do Rock passou dos 250 mil metros quadrados da primeira edição para cerca de 385 mil. E não são apenas os palcos. Ali funcionam gigantescos sistemas de som e iluminação, mais de 5 mil metros quadrados de painéis de LED, bares, restaurantes, espaços climatizados e grandes brinquedos, como roda-gigante, montanha-russa, megadrop, Discovery e tirolesa.

Para alimentar essa verdadeira cidade temporária, a operação de 2026 é a maior já realizada pela fornecedora oficial em um Rock in Rio: são mais de 25 MVA de potência instalada, mais de 125 quilômetros de cabos e até torres fotovoltaicas. Só o Palco Mundo possui aproximadamente 2.400 metros quadrados de LED e cerca de 200 amplificadores.

Já na edição de 2026, outro número ajuda a compreender a dimensão atual do evento. O consumo elétrico estimado é de 4 mil MWh, ou 4 milhões de kWh. Essa energia seria suficiente para abastecer durante um mês cerca de 20 mil residências com consumo médio de 200 kWh mensais, algo equivalente a uma pequena cidade.

Mas em um evento desse porte não basta ter energia. É preciso garantir que ela não falte. A infraestrutura trabalha com ilhas de geração, subestações e sistemas de redundância. Nos palcos, dois geradores trabalham de forma redundante, cada um capaz de assumir metade da carga, reduzindo o risco de interrupção durante os shows. Afinal, uma falha de poucos segundos pode comprometer som, iluminação, telões e toda a experiência.

Há também a questão ambiental. Para os 4 mil MWh estimados de consumo serão emitidos certificados de energia renovável equivalentes à eletricidade utilizada no evento. Isso não significa que cada equipamento esteja fisicamente conectado a uma usina renovável. No Sistema Interligado Nacional, a energia das diferentes fontes chega à mesma rede. Os certificados asseguram que quantidade equivalente à consumida pelo festival foi gerada a partir de fontes renováveis.

A estratégia ambiental vai além. A estimativa é compensar cerca de 50 mil toneladas de CO₂, considerando inclusive o deslocamento do público. Parte dessa compensação utiliza créditos de carbono associados à geração renovável da Usina Hidrelétrica Teles Pires, localizada entre o Pará e Mato Grosso.

Em 1985, eu estava ali, no primeiro Rock in Rio. Quarenta e um anos depois, voltei a olhar para os artistas e para a multidão, mas desta vez não consegui deixar de enxergar também a energia.

Talvez essa seja uma das características mais fascinantes da eletricidade: quando tudo funciona perfeitamente, quase ninguém percebe que ela está ali.

No Rock in Rio, enquanto a música é o espetáculo que todos veem, existe outro acontecendo silenciosamente nos bastidores.

É a energia que torna todo o resto possível.

João de Deus Lobato é engenheiro eletricista, ex-executivo da distribuidora de energia do Pará, articulista semanal do Diário do Pará, do portal DOL e da Gazeta do Amapá, consultor em energia e apresentador do podcast ÉLivre com João Lobato.

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