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O curioso caso de quem não tem “cecê”: genética explica ausência de odor

Um estudo identificou que uma variação do gene ABCC11 impede a formação do odor nas axilas. A jornalista Mayra Monteiro afirma nunca ter usado desodorante.

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Imagem ilustrativa da notícia O curioso caso de quem não tem “cecê”: genética explica ausência de odor camera Especialistas explicam que uma variação do gene ABCC11 pode impedir a formação do odor nas axilas | ( Reprodução/ Depositphotos )

Quem mora em uma cidade quente e úmida como Belém sabe que o suor faz parte da rotina. Mas, para algumas pessoas, transpirar não significa necessariamente ter “cecê”. Uma característica genética, associada ao gene ABCC11, impede que parte da população produza o odor típico das axilas, tornando o uso de desodorante desnecessário. A condição, comum em países do Leste Asiático, também pode ser encontrada em brasileiros, como a jornalista paraense Mayra Monteiro, de 30 anos, que afirma nunca ter usado o produto.

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A explicação está na forma como o organismo produz o odor corporal. Diferentemente do que muitos imaginam, o suor não tem cheiro, logo não é ele responsável pelo chamado “cecê”.

Segundo a dermatologista Giselle Parente Souza, algumas pessoas possuem uma alteração genética que praticamente elimina esse processo.

“O suor, por si só, não tem cheiro. O odor característico das axilas surge quando as bactérias que vivem naturalmente na pele metabolizam substâncias produzidas pelas glândulas sudoríparas apócrinas. Algumas pessoas possuem uma variação genética que faz com que essas glândulas produzam uma quantidade muito menor dessas substâncias. Assim, mesmo transpirando normalmente, elas praticamente não desenvolvem odor corporal”, explica.

A dermatologista Giselle Parente Souza
📷 A dermatologista Giselle Parente Souza |( Reprodução / arquivo pessoal )

Essa alteração ocorre no gene ABCC11, responsável por influenciar o funcionamento dessas glândulas.

“Uma variação específica desse gene reduz a produção de compostos que servem de alimento para as bactérias responsáveis pelo odor corporal. Essa mesma alteração genética também está associada à produção da chamada cera de ouvido seca, em vez da cera úmida”, afirma a médica.

Estudos apontam que essa característica genética é extremamente comum entre populações do Leste Asiático, como chineses, japoneses e coreanos, onde até 95% das pessoas praticamente não desenvolvem odor nas axilas.

Estudo britânico reforça influência da genética

A relação entre a genética e a ausência do “cecê” já foi comprovada por pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido. Em um estudo publicado em 2013, os cientistas analisaram dados de 6.495 mulheres participantes do projeto Children of the 90s (“Crianças dos anos 90”) e identificaram que cerca de 2% delas carregavam uma variação do gene ABCC11, responsável por impedir a formação do odor nas axilas.

Mesmo sem produzirem o chamado “cecê”, os pesquisadores descobriram que 75% dessas mulheres continuavam usando desodorante, principalmente por hábito ou influência cultural. Em comparação, apenas uma em cada quatro deixou de utilizar o produto, evidenciando que o comportamento nem sempre acompanha a predisposição genética.

Os autores defendem que, no futuro, o conhecimento sobre o perfil genético de cada pessoa poderá contribuir para recomendações mais personalizadas de produtos de higiene, evitando o uso desnecessário de desodorantes por quem naturalmente não desenvolve odor corporal.

Jornalista afirma que nunca precisou de desodorante

A jornalista Mayra Monteiro, de 30 anos, conta que percebeu ainda na infância que sua relação com o suor era diferente da maioria das pessoas.

“Percebi isso ainda muito nova. Notei que praticamente não transpirava nas axilas e, quando transpirava, não tinha cheiro. Por isso, nunca senti necessidade de usar desodorante e acabei nem criando esse hábito.”

Sem “cecê”: a jornalista paraense Mayra Monteiro afirma nunca ter usado desodorante. Especialistas explicam que uma variação do gene ABCC11 pode impedir a formação do odor nas axilas.
📷 Sem “cecê”: a jornalista paraense Mayra Monteiro afirma nunca ter usado desodorante. Especialistas explicam que uma variação do gene ABCC11 pode impedir a formação do odor nas axilas. |( Reprodução / arquivo pessoal )

O mais curioso é que ela nunca chegou sequer a experimentar um desodorante. “Nunca usei. Minha mãe sempre dizia que, se eu começasse a usar, acabaria ficando dependente. Então, nunca nem experimentei.”

Mesmo morando em Belém, cidade conhecida pelas altas temperaturas durante praticamente todo o ano, Mayra garante que continua sem desenvolver odor corporal.

“Faço academia e continuo sem usar desodorante. Eu transpiro normalmente, mas não tenho mau cheiro nas axilas. Algumas pessoas até dizem que posso não ter as glândulas responsáveis pelo odor. Além disso, tenho alguns cuidados com a higiene que acredito que também ajudam.”

Dermatologista reforça que isso é perfeitamente possível.

“O calor e a umidade aumentam a transpiração, mas não alteram essa predisposição genética. Se a pessoa possui essa característica genética e realmente não desenvolve odor corporal, ela pode não sentir necessidade de utilizar desodorante.”

Ela ressalta ainda que não existe relação entre não ter odor e suar menos. “Na maioria dos casos, essas pessoas transpiram normalmente. A diferença está apenas na composição das secreções produzidas pelas glândulas apócrinas.”

A curiosidade das pessoas

Sempre que conta que nunca usou desodorante, Mayra desperta reações curiosas.

“Tem gente que acredita de imediato, mas outras pessoas preferem conferir por conta própria. Já aconteceu de algumas chegarem perto e até cheirarem minhas axilas para saber se eu estava falando a verdade.”

Apesar de conhecer hoje a possibilidade genética, ela admite que nunca investigou o caso. “Sinceramente, não sei explicar. Não sei se é por causa da minha rotina de higiene ou se existe alguma explicação genética. Nunca fiz exames para confirmar.”

Uma técnica de higiene que virou rotina

Mesmo sem usar desodorante, Mayra mantém uma rotina cuidadosa de higiene e acredita que isso também contribui para a ausência de odor.

Segundo ela, durante todos os banhos faz movimentos circulares com as unhas fechadas sobre as axilas, utilizando sabonete e aplicando leve pressão para limpar completamente a região.

Ela acredita que esse cuidado ajuda a remover resíduos acumulados na pele e contribui para manter as axilas sem cheiro.

Alimentação influencia no “cecê”?

Entre as dúvidas mais comuns está a influência da alimentação sobre o odor corporal.

Segundo a dermatologista, existe uma relação, mas ela é menor do que muitas pessoas imaginam. “Alguns alimentos, como alho, cebola, curry, bebidas alcoólicas e temperos muito fortes, podem alterar temporariamente o odor corporal porque alguns de seus compostos são eliminados também pelo suor.”

Por outro lado, ela destaca que uma alimentação equilibrada pode colaborar para um odor corporal mais discreto.

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“No entanto, essas mudanças costumam ser sutis. Se uma pessoa possui a variação genética do gene ABCC11, ela tende a produzir pouco ou nenhum odor nas axilas independentemente da dieta. Trata-se de uma interação entre genética, microbiota da pele, higiene, alimentação e estilo de vida.”

Mayra também acredita que seus hábitos podem colaborar. “Acredito que a genética tenha um papel importante, mas também acho que a higiene e a alimentação influenciam. Não costumo consumir muitos alimentos gordurosos ou muito calóricos.”

O que significa “cecê”?

Pouca gente sabe, mas a palavra “cecê” nasceu da publicidade.

Na década de 1940, campanhas da marca de sabonetes Lifebuoy adaptaram para o Brasil a expressão inglesa B.O. (Body Odor), utilizada para designar o cheiro corporal. A sigla passou a ser traduzida como C.C., de “cheiro corporal”. Com o tempo, o público começou a pronunciar as duas letras como uma única palavra, dando origem ao popular “cecê”.

Quando famosos chamam atenção para o assunto

O tema ganhou repercussão nacional em 2024, quando a apresentadora Ana Maria Braga revelou, durante o programa Mais Você, que nunca usou desodorante porque não possui odor nas axilas.

Na ocasião, ela contou que cresceu em uma família que não utilizava o produto e que, por curiosidade, chegou a investigar a condição com um especialista em bioquímica.

Já em 2025, o tema voltou às redes sociais após rumores envolvendo o ator Cauã Reymond. Anos antes, durante uma entrevista ao programa Vamos Combinar, ele havia revelado que prefere usar talco nas axilas em vez de desodorante, afirmando que transpira de maneira diferente.

É preciso usar desodorante?

Para quem realmente não desenvolve odor corporal, a resposta é simples. “Não há risco em deixar de usar desodorante, desde que a pessoa mantenha uma boa higiene corporal. O produto tem como principal função controlar o odor e, em alguns casos, reduzir a transpiração. Quem não apresenta odor não precisa utilizá-lo obrigatoriamente”, esclarece a dermatologista.

Ela acredita que o avanço da genética poderá mudar, no futuro, até mesmo a forma como produtos de higiene são recomendados.

“A medicina caminha para uma abordagem cada vez mais personalizada. No futuro, poderemos indicar produtos de higiene com base nas características genéticas de cada pessoa.”

Quanto Mayra economizou?

Além da curiosidade científica, existe também uma financeira.

Considerando que uma pessoa comece a usar desodorante por volta dos 12 anos e compre, em média, uma unidade por mês, Mayra deixou de adquirir aproximadamente 216 desodorantes ao longo de 18 anos.

Com base nos preços praticados atualmente no Brasil, essa economia varia entre R$ 1.855 (considerando produtos de R$ 8,59) e R$ 5.400 (para desodorantes de R$ 25). Utilizando um preço médio de mercado, a economia fica em torno de R$ 3.600 tudo isso simplesmente porque seu organismo não produz o famoso “cecê”.

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