A relação entre saúde mental e experiências coletivas ganha um significado especial em Belém neste mês de outubro. O Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, ocorre um dia antes do Círio de Nazaré, que será realizado no domingo (11). Em uma época marcada pela fé, pelos reencontros e pela presença de milhões de pessoas nas ruas, especialistas destacam como sentimentos de pertencimento e conexão podem influenciar o bem-estar emocional, mas também lembram que o período pode despertar saudade, luto e outras emoções intensas.
Para o psicólogo Fabrício Vieira, celebrações como o Círio ultrapassam a dimensão religiosa. Para muitas pessoas, a festividade está ligada a memórias da infância, tradições familiares e experiências compartilhadas ao longo dos anos.
“O Círio não representa apenas uma procissão. Para muitas pessoas, ele está ligado à história familiar, à infância, às pessoas que participavam juntas e às experiências vividas ao longo dos anos”, explica.

O impacto de estar junto
A importância das relações sociais para o bem-estar tem ganhado espaço nas discussões sobre saúde. Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2025 alertou para os efeitos da solidão e do isolamento e destacou o papel das conexões sociais na saúde física e mental. Segundo a entidade, uma em cada seis pessoas no mundo vivencia a solidão.
Nesse contexto, momentos de encontro podem ter significado especial para quem utiliza o período do Círio para rever familiares, reencontrar amigos ou participar de atividades coletivas.
Mais do que estar fisicamente em meio a uma multidão, o psicólogo ressalta a importância da sensação de fazer parte de um grupo.
“O pertencimento possui relação com sentir que fazemos parte de algo, que temos vínculos e referências. Isso pode ser emocionalmente importante”, afirma.
Memórias também podem trazer saudade
A experiência emocional durante o Círio, porém, não é necessariamente marcada apenas pela alegria. Para algumas pessoas, as lembranças associadas à festividade podem trazer à tona a ausência de familiares ou amigos que morreram, além da saudade de quem está distante.
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Segundo Fabrício, não existe uma única maneira considerada correta de reagir a essas lembranças.
“Datas muito carregadas de memória podem despertar emoções intensas. Uma pessoa pode se emocionar porque está vivendo o Círio com a família, enquanto outra pode sentir profundamente a ausência de alguém com quem costumava dividir aquele momento”, explica.
Compartilhar esses sentimentos com pessoas próximas pode ajudar a atravessar períodos de maior sensibilidade. Quando o sofrimento permanece ou começa a interferir na rotina, porém, é importante considerar a busca por apoio especializado.
Fé e acompanhamento profissional podem caminhar juntos
A espiritualidade também pode representar uma fonte de conforto e esperança para muitas pessoas durante momentos difíceis. O psicólogo ressalta, entretanto, que a fé e o acompanhamento profissional não precisam ser vistos como caminhos excludentes.
“A fé pode ser uma importante fonte de conforto, acolhimento e fortalecimento emocional para muitas pessoas. Da mesma forma, o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico pode contribuir para o cuidado com a saúde mental quando necessário”, afirma.
Tristeza persistente, ansiedade intensa, alterações significativas no sono, isolamento, perda de interesse por atividades cotidianas e sofrimento que compromete a rotina estão entre os sinais que podem indicar a necessidade de procurar ajuda profissional.
Em um período em que Belém se transforma pelo encontro entre fé, tradição e comunidade, o cuidado com as emoções também ganha espaço. Para o especialista, reconhecer o que se sente e perceber quando é necessário pedir apoio faz parte desse cuidado.
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